Martinho
Lutero
Portanto,
não se podem justapor as obras à fé. Com o que contribui um menino que seja
engendrado e dado à luz? Isto é obra dos pais; o menino não faz nada para que
as suas perninhas e todos os seus membros cresçam; não é parte ativa neste
processo de crescimento mas parte meramente passiva. Qual foi, neste sentido, o
nosso contributo? Onde estão as obras cooperantes? Queria saber então a razão
porque vem essa insistência em que se devem adicionar também as obras, e desde
logo as nossas próprias obras!
É
verdade: a mãe leva a criatura nas suas entranhas e dá-lhe o calor materno;
entretanto, não é obra desta criatura que ela se origine. De igual maneira,
aqueles que pregamos e batizamos somos nós; e, entretanto, a palavra e o
batismo não são nossos; só pomos a nossa boca e as nossas mãos à disposição. Na
verdade, o batismo e a palavra são de Deus, e não obstante, nós somos chamados
colaboradores de Deus (1 Coríntios 3:9). É, por certo, uma colaboração bastante
modesta a nossa; não que contribuamos com a obra ou a palavra; o que unicamente
contribui ao pregar e batizar é a voz, são os dedos, a boca.
Assim,
no engendramento de uma criatura, o pai e a mãe só contribuem com a sua carne e
sangue, como fatores deles; a criatura, por outro lado, não contribui com
absolutamente nada, mas que “deixa criar” por Deus todos os membros, e a mãe a
leva no seu seio. Há alguma razão, então, para que eu tire a Deus a honra e
diga que eu mesmo me engendrei, e que o meu próprio atuar contribuiu para que
eu nascesse? Não significaria isto ofender a Deus? Acaso não somos chamados
Seus filhos, obra de Suas mãos? Se é verdade que as obras colaboram na
regeneração, vejo-me obrigado também a dizer que eu colaborei com Deus — e isto
é uma blasfêmia contra Deus. Mas se é verdade que eu sou nascido de novo, como
diz Cristo, não tenho de colaborar com nada, mas tenho de permanecer quieto e
passivo para que Aquele que é meu Pai e Criador me faça nascer de novo como Seu
filho.
Neste
sentido declara o apóstolo Paulo que "nós somos uma nova criação, criados
em Cristo para as boas obras". Como se vê, Paulo não esquece as boas
obras. Mas menciona-as não porque tenham contribuído com algo, não porque elas
sejam as que produzem a nova criação, mas "para que andássemos
nelas". Se é certo que as minhas próprias obras contribuem para que eu
seja uma nova criação, bem me posso gloriar de ser o meu próprio Deus; porque o
criar é obra de Deus exclusivamente. Se colaboro, então Deus não é meu único
Deus, mas que eu também o sou.
Por
outro lado, se Ele é o único, não o posso ser eu também, como se afirma muito
claramente no Salmo: "Foi Ele, e não nós, que nos fez povo Seu e ovelhas
do Seu pasto". E, não obstante, certa gente incorre na tremenda tolice de
sustentar que a fé engendra homens novos, mas com ajuda das obras. Mas carece
de toda lógica dizer que eu me crio a mim mesmo e sou Deus junto com Deus, de
modo que Ele me tem a Seu lado como um Deus adjunto. Assim como eu não me
formei a mim mesmo no corpo de minha mãe, mas foi Deus quem me formou
valendo-se dos membros e do calor de minha mãe, assim tampouco na regeneração
somos gerados mediante as nossas próprias forças e obras, mas unicamente pelas
mãos e pelo Espírito de Deus. Em consequência, é ilícito acrescentar obras à
fé; em caso contrário, não é Deus só o que me cria, mas que eu sou,
simultaneamente com Ele, o meu próprio criador.
Para
o fogo do Inferno um criador que se cria a si mesmo! A Escritura chama-me uma
nova criação de Deus, e não obstante, eu, então, ter-me-ia de atribuir a nova
criação a mim mesmo? Desse modo, eu seria criação e criador, obra e obreiro,
numa mesma pessoa. Claramente, estes são pensamentos diabólicos e ensinos de
homens enceguecidos. Devemos ater-nos, por assim dizer, estritamente ao que
aqui nos ensina o evangelista São João. Também Paulo nos chama "novas
criaturas". Da mesma maneira, pois, como eu não faço nenhum contribuição
para o meu nascimento corporal e engendramento, mas que sou parte meramente
passiva e 'faço-me' engendrar e criar, desta mesma maneira tampouco as obras
fazem contribuição alguma para que o homem seja regenerado. Não sendo assim,
Deus já não será só Ele Deus, mas nós seremos Deus junto com Ele, e seremos
nossos próprios progenitores.
Mas
quando a criatura já está engendrada, e quando o bebê já está formado no seio
materno com todos os seus membros, a mãe diz: “Sinto que o bebê faz as obras
que em seu estado pode fazer." Mas só o já criado dá estes sinais da sua
existência, e só quando tenha sido dado à luz mexe os seus membros, e se fica
com vida, aprende a caminhar e a cantar. Mas se não tivesse sido criado
previamente, agora não se mexeria.
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