quinta-feira, 11 de abril de 2013

Necessário nos é nascer de novo (2)




Martinho Lutero

2. Só a regeneração nos dá parte na salvação eterna.
         É-nos dito, pois: "Necessário te é nascer pela segunda vez." A Nicodemos, isto pareceu-lhe chocante. Ele pensava em outras leis, posteriores ao marco das leis mosaicas, como as achamos no papado e no judaísmo farisaico; esperava que Cristo estabeleça artigos novos, leis novas, todo um código novo. Mas nada disto: Cristo não diz uma palavra quanto a novas leis e estatutos. "Pois o que tendes em matéria de leis, já é mais do que podeis cumprir. Eu, por outro lado, prego-vos assim: Vós, vós mesmos tendes de chegar a ser outra gente. Eu não falo de fazer ou não fazer, mas de vir a ser. Tu tens de vir a ser outro homem, tens de nascer de novo. Isto será então a justiça que dá no alvo, a justiça sem mancha nem ruga, a justiça que conseguirá entrar no céu."
         Ao ouvir a Jesus falar desta maneira, vêm a Nicodemos certas dúvidas. Isto são palavras novas para ele. "Entrar, eu, pela segunda vez, no ventre de minha mãe? Tolices!" Mas a estas tolices, Cristo acrescenta outras piores: "Não te digo que tenhas de nascer de novo de pai e mãe humanos, mas da água e do Espírito Santo." Agora, Nicodemos fica confundido de todo: "Que homem e mulher são estes: água e Espírito?" E, como se ainda não fora suficiente, Cristo pergunta: "És tu mestre em Israel, e não sabes isto?", o que soa a manifesta brincadeira. E, entretanto, Cristo tem de falar assim, porque o tema é para o Nicodemos completamente novo. Para o esclarecer Cristo recorre a uma ilustração, como querendo dizer a Nicodemos: "Queres que faça um desenho para que o entendas? Digo-te porém: se não podes captar isto com a razão, capta-o com a fé. Pois se não crês se te tenho dito coisas terrestres, como crerás se te disser as coisas celestiais? Nós falamos o que sabemos, e o que sabemos é a verdade; e vós não credes. E então: se alguém não quer crer, largue-se!"
         A nossa pregação, iniciada naquele tempo por Cristo, estriba-se exclusivamente na fé. Só com a fé podes compreender isto da "regeneração pela água e o Espírito Santo". O Espírito é o varão, a água é a mulher. O que isto implica, não o podes medir com a tua razão. Daí que o nosso tema que pregamos, seja o artigo das boas obras e da fé. E já os papistas aprenderam algo de nós ao dizerem que com a fé e a graça começa a vida verdadeiramente cristã. Antes só se falava da missa privada e da invocação dos santos; agora, por outro lado, dizem que a fé, com efeito, salva, mas não a fé sozinha, mas a fé em cooperação com as nossas obras; essa cooperação, sustentam, é imprescindível. E a nós criticam-nos duramente afirmando que proibimos as obras e induzimos os homens à desídia. Ainda lhes falta bastante para ser tão piedosos e estar tão perto da verdade como Nicodemos.
         Nós nunca proibimos as boas obras; mais ainda: se dissermos algo a respeito de boas obras, a nossa própria gente perde as estribeiras, o que é um claro sinal de que realmente pregamos sobre este tema. E apesar disso, os papistas continuam blasfemando de nós. Eles ensinam: “As boas obras têm de vir em ajuda da fé" — vãs palavras que demonstram que esses mestres não têm noção do que é a fé, as boas obras, o nascer do Espírito, o nascer de Deus. É, portanto, muito necessário que estudemos com cuidado o nosso presente versículo (João 3:5) e outros similares.
         Aqui fala-se de "nascer de novo", não de "fazer algo novo". Primeiro deves plantar a árvore, logo terás, também, frutos. Conforme seja a árvore, boa ou má, também os frutos serão bons ou maus. O mesmo acontece aqui. Nós a isso chamamos um novo nascimento, quer dizer, uma nova maneira de ser, uma nova pessoa, não somente um novo vestido ou novas obras. Quando eu era monge, a minha vestimenta era distinta, e as minhas obras também o eram; as sete horas para as orações, a missa, a crisma, o celibato — todas estas eram outras obras, muito dissimiles das minhas obras anteriores. Mas a simples mudança das obras não é o que vale; que mude a pessoa, que mudem os pensamentos e o ânimo: este é o novo nascimento.

Nenhum comentário: