Martinho
Lutero
2. Só a regeneração nos dá parte
na salvação eterna.
É-nos
dito, pois: "Necessário te é nascer pela segunda vez." A Nicodemos,
isto pareceu-lhe chocante. Ele pensava em outras leis, posteriores ao marco das
leis mosaicas, como as achamos no papado e no judaísmo farisaico; esperava que
Cristo estabeleça artigos novos, leis novas, todo um código novo. Mas nada
disto: Cristo não diz uma palavra quanto a novas leis e estatutos. "Pois o
que tendes em matéria de leis, já é mais do que podeis cumprir. Eu, por outro
lado, prego-vos assim: Vós, vós mesmos tendes de chegar a ser outra gente. Eu
não falo de fazer ou não fazer, mas de vir a ser. Tu tens de vir a ser outro
homem, tens de nascer de novo. Isto será então a justiça que dá no alvo, a
justiça sem mancha nem ruga, a justiça que conseguirá entrar no céu."
Ao
ouvir a Jesus falar desta maneira, vêm a Nicodemos certas dúvidas. Isto são
palavras novas para ele. "Entrar, eu, pela segunda vez, no ventre de minha
mãe? Tolices!" Mas a estas tolices, Cristo acrescenta outras piores:
"Não te digo que tenhas de nascer de novo de pai e mãe humanos, mas da
água e do Espírito Santo." Agora, Nicodemos fica confundido de todo:
"Que homem e mulher são estes: água e Espírito?" E, como se ainda não
fora suficiente, Cristo pergunta: "És tu mestre em Israel, e não sabes
isto?", o que soa a manifesta brincadeira. E, entretanto, Cristo tem de
falar assim, porque o tema é para o Nicodemos completamente novo. Para o esclarecer
Cristo recorre a uma ilustração, como querendo dizer a Nicodemos: "Queres
que faça um desenho para que o entendas? Digo-te porém: se não podes captar
isto com a razão, capta-o com a fé. Pois se não crês se te tenho dito coisas
terrestres, como crerás se te disser as coisas celestiais? Nós falamos o que
sabemos, e o que sabemos é a verdade; e vós não credes. E então: se alguém não
quer crer, largue-se!"
A
nossa pregação, iniciada naquele tempo por Cristo, estriba-se exclusivamente na
fé. Só com a fé podes compreender isto da "regeneração pela água e o
Espírito Santo". O Espírito é o varão, a água é a mulher. O que isto
implica, não o podes medir com a tua razão. Daí que o nosso tema que pregamos,
seja o artigo das boas obras e da fé. E já os papistas aprenderam algo de nós
ao dizerem que com a fé e a graça começa a vida verdadeiramente cristã. Antes
só se falava da missa privada e da invocação dos santos; agora, por outro lado,
dizem que a fé, com efeito, salva, mas não a fé sozinha, mas a fé em cooperação
com as nossas obras; essa cooperação, sustentam, é imprescindível. E a nós
criticam-nos duramente afirmando que proibimos as obras e induzimos os homens à
desídia. Ainda lhes falta bastante para ser tão piedosos e estar tão perto da
verdade como Nicodemos.
Nós
nunca proibimos as boas obras; mais ainda: se dissermos algo a respeito de boas
obras, a nossa própria gente perde as estribeiras, o que é um claro sinal de
que realmente pregamos sobre este tema. E apesar disso, os papistas continuam
blasfemando de nós. Eles ensinam: “As boas obras têm de vir em ajuda da
fé" — vãs palavras que demonstram que esses mestres não têm noção do que é
a fé, as boas obras, o nascer do Espírito, o nascer de Deus. É, portanto, muito
necessário que estudemos com cuidado o nosso presente versículo (João 3:5) e
outros similares.
Aqui
fala-se de "nascer de novo", não de "fazer algo novo".
Primeiro deves plantar a árvore, logo terás, também, frutos. Conforme seja a
árvore, boa ou má, também os frutos serão bons ou maus. O mesmo acontece aqui.
Nós a isso chamamos um novo nascimento, quer dizer, uma nova maneira de ser,
uma nova pessoa, não somente um novo vestido ou novas obras. Quando eu era
monge, a minha vestimenta era distinta, e as minhas obras também o eram; as
sete horas para as orações, a missa, a crisma, o celibato — todas estas eram
outras obras, muito dissimiles das minhas obras anteriores. Mas a simples
mudança das obras não é o que vale; que mude a pessoa, que mudem os pensamentos
e o ânimo: este é o novo nascimento.
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