O indivíduo se beneficia do estudo das
Escrituras, quando elas lhe revelam a sua Necessidade de Cristo.
O homem, em
seu estado natural, se considera autosuficiente. Naturalmente que ele tem uma
apagada percepção de que nem tudo está perfeitamente certo entre ele mesmo e
Deus; no entanto, não tem dificuldade alguma, para persuadir a si próprio de
que é capaz de fazer aquilo que propicie a Deus. Isso faz parte do fundamento
mesmo da religião de todo o homem, e que teve início em Caim, e em cujo
"Caminho" (Judas 11), as multidões continuam andando. Basta que se
diga ao homem religioso comum que: "... Os que estão na carne, não podem
agradar a Deus" (Romanos 8:8), Para que esse homem se sinta imediatamente
ofendido. E basta que se pressione sobre ele o fato de que: "... Todas as
nossas justiças (são) como trapo de imundícia" (Isaías 64:6), Para que sua
urbanidade hipócrita, imediatamente dê lugar à ira. Assim acontecia nos dias em
que Cristo estava na terra. O povo mais religioso de todos, os judeus, não
tinha qualquer senso de que eles estavam "Perdidos", como também da
urgente necessidade de um Salvador Todo-poderoso. "Os sãos não precisam de
médico, e, sim, os doentes" (Mateus 9:12).
Faz parte do
oficio específico do Espírito Santo, mediante a Sua aplicação das Verdades
bíblicas, o convencer os pecadores de sua desesperadora situação, para que
assim possam perceber, que o seu estado é tal que: "Desde a planta do pé
até à cabeça, não há nele cousa sã, senão feridas, contusões e chagas
inflamadas, umas e outras não espremidas, nem atadas, nem amolecidas com
óleo" (Isaías 1:6). Mas, na proporção em que o Espírito nos convence de
nossos pecados – de nossas ingratidões contra Deus, de nossas murmurações
contra Ele, de nosso afastamento para longe dEle – e à medida em que nos
impressiona com as reivindicações de Deus – os direitos que Ele tem ao nosso amor, à nossa obediência e à nossa adoração
bem como de nossas tristes e fracassadas tentativas de prestar-Lhe aquilo que
Lhe devemos, então somos levados a reconhecer que Cristo, é a nossa Única
esperança, e que, a menos que nos abriguemos Nele, qual refúgio, a justa
indignação de Deus, mui certamente haverá de cair sobre nós.
Entretanto,
não devemos limitar isso à experiência inicial da conversão. Quanto mais o
Espírito Santo aprofunda a Sua obra graciosa na alma regenerada, tanto mais o
indivíduo se torna cônscio de sua própria corrupção,
de sua pecaminosidade e de sua vileza; e percebe ainda mais a sua
necessidade de dar valor, àquele precioso sangue que o purifica de todo pecado.
O Espírito Santo está aqui a fim de glorificar a Cristo; e uma das principais
maneiras pela qual Ele faz isso, é abrindo mais e mais os olhos daqueles em
favor de quem Cristo morreu, para que percebam quão apropriado é Ele, para
criaturas tão miseráveis, tão imundas, tão merecedoras do inferno.
Sim, quanto mais verdadeiramente tiramos proveito de nossa leitura das
Escrituras, tanto mais sentimos que precisamos de Cristo.
2. O indivíduo se beneficia das Escrituras,
quando elas tornam Cristo mais Real para ele.
A grande
massa da nação israelita, nada mais via, senão a casca externa, nos ritos e
cerimônias que Deus lhes deu, para que os observassem; mas um remanescente
regenerado, teve o privilégio de contemplar o Próprio Cristo. "Vosso pai
Abraão alegrou-se, por ver o meu dia, viu-o e regozijou-se...", Declarou o
Senhor Jesus, em João 8: 56. Moisés, "... Considerou o opróbrio de Cristo,
por maiores riquezas do que os tesouros do Egito...". (Hebreus 11:26).
Outro tanto
ocorre na cristandade. Para as multidões, Cristo é apenas um nome, ou, quando
muito, um ‘caráter histórico’. Esses não têm contatos pessoais com Ele, não
desfrutaram de qualquer companheirismo espiritual com Ele. Se porventura
ouvirem alguém falar, arrebatado, sobre as excelências de Sua Pessoa, haverão
de considerá-lo um entusiasta ou um fanático. Para tais indivíduos, Cristo é irreal, vago, intangível. No caso
do crente autêntico, todavia, a atitude é inteiramente outra. A linguagem de
seu coração é:
‘Tenho ouvido a voz de Jesus.
Para mim, só Ele é perfeito.
Tenho visto a face de Jesus,
Minha alma ficou satisfeita.’
Contudo,
essa visão bem-aventurada, não é a experiência constante e invariável dos
santos. Assim como as nuvens se interpõem entre o sol e a terra, assim também
as falhas, em nosso andar diário, interrompem a nossa comunhão com Cristo, e
servem para ocultar de nós o resplendor de Sua face. "Aquele que tem os
Meus Mandamentos e os guarda, esse é
o que me ama; e aquele que me ama,
será amado por Meu Pai, e Eu também o amarei
e Me manifestarei a ele" (João 14:21). Sim, é aquele que, pela graça,
palmilha pela senda da obediência,
que recebe as manifestações conferidas pelo Próprio Senhor Jesus. E quanto mais
frequentes e prolongadas forem essas manifestações, mais real Ele se torna para
a alma, até sermos capazes de dizer juntamente com Jó: "Eu te conhecia só
de ouvir, mas agora os meus olhos Te veem". (Jó 42:5). Assim, pois, quanto
mais Cristo for Se tornando uma Realidade Viva para mim, mais tirarei proveito
da Palavra.
3. O indivíduo se beneficia das
Escrituras, quando se ocupa das Perfeições de Cristo.
É o senso de
necessidade, que lança a alma aos braços de Cristo, no princípio; mas é a
percepção de Suas Excelências que nos
faz achegarmo-nos a Ele, desde então. Quanto mais Real Cristo Se torna para
nós, tanto mais, vamos sendo atraídos pelas Suas Perfeições. No começo, Ele é
visto apenas como Salvador; mas, na proporção em que o Espírito Santo continua
a destacar diante de nossos olhos aquilo que pertence a Cristo, descobrimos que
sobre a Sua cabeça há, "... Muitos diademas...". (Apocalipse 19:12).
Desde a antiguidade que foi dito: "... E o seu nome será:
Maravilhoso...". (Isaías 9:6) E o nome de Cristo significa tudo quanto
Dele as Escrituras dão a conhecer. "Maravilhosos" são os Seus ofícios, quanto ao seu número, quanto à
sua variedade, e quanto à Sua suficiência.
Ele é o Amigo que nos é mais chegado
do que um irmão, que nos ajuda, em cada momento de necessidade. Ele é o grande Sumo Sacerdote, que Se deixa comover
diante das nossas debilidades. Ele é o nosso Advogado junto a Deus Pai, o qual nos faz a defesa quando Satanás
nos acusa.
Nossa grande
necessidade é ocuparmo-nos com Cristo, assentarmo-nos a Seus pés, conforme fez
Maria, recebendo assim de Sua Plenitude. Nosso principal deleite deve ser
considerar: "... Atentamente o Apóstolo e Sumo Sacerdote da nossa
confissão, Jesus". (Hebreus 3:1); Devem ser contempladas as várias
Relações que Ele mantém para conosco, meditar acerca das muitas Promessas que
Ele nos tem feito, demorarmo-nos na contemplação de Seu admirável e imutável
amor por nós. Ao fazermos assim, haveremos de deleitar-nos no Senhor de tal
modo, que as vozes de sereia deste mundo, perderão todo o seu encantamento em
nosso caso.
Ah, prezado
amigo, você conhece experiência assim, em sua vida diária? Cristo é, para a sua
alma, o principal entre dez milhares? Conquistou Ele o seu coração? Sua
principal alegria, é ficar sozinho com Ele, a conversar com o Senhor? Caso
contrário, a sua leitura, e o seu estudo da Bíblia bem pouco lhe tem
aproveitado.
4. O indivíduo se beneficia das
Escrituras, quando Cristo se torna mais Precioso para ele.
Cristo é
precioso, na estima de todos os crentes (I Pedro 2:7). Esses consideram todas
as coisas como perda, em face da excelência do conhecimento de Cristo Jesus,
seu Senhor (Filipenses 3:8). O nome Dele, para eles, é um unguento derramado
(Cantares 1:3). Assim como a Glória de Deus, que aparecia em Beleza
Indescritível, no templo, bem como na sabedoria, e no resplendor da corte de
Salomão, atraía adoradores desde as regiões mais distantes da terra, assim
também a Excelência sem paralelos de Cristo – ali prefigurada – atrai, ainda
mais poderosamente, os corações de Seu Povo. O diabo sabe disso perfeitamente
bem, pelo que ele também procura enegrecer as mentes daqueles que não creem,
colocando entre eles e Cristo as atrações deste mundo. E Deus permite ao diabo,
assediar igualmente ao crente. Entretanto, está escrito: "... Resisti ao
diabo, e ele fugirá de vós" (Tiago 4:7). Devemos resistir-lhe mediante
oração definida e sincera, rogando ao Espírito Santo, que incline as nossas
afeições para Cristo.
Quanto mais
nos ocuparmos com as perfeições de Cristo, mais haveremos de amá-Lo e de
adorá-Lo. É a falta de familiaridade experimental com Ele, que faz nossos
corações se tornarem tão frios para com Ele. Mas, sempre que uma comunhão real
e diária é cultivada, o crente será capacitado a dizer junto com o salmista:
"Quem mais tenho eu no Céu? Não há outro, em quem eu me compraza na
terra" (Salmo 73:25).
Essa é a
própria essência, e a natureza distinta do verdadeiro cristianismo. Os zelotes
legalistas talvez se ocupem atarefadamente em dizimar a hortelã, o endro e o
cominho, e talvez percorram mares e terras para fazer um prosélito, e, contudo,
não têm amor a Deus, em Cristo. Deus
olha para o coração: "Dá-me, filho meu, o teu coração...".
(Provérbios 23:26). É a Sua exigência. E quanto mais precioso Cristo é para
nós, tanto maior, é o deleite que Ele tem em nós.
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