John Wesley
“Quando jejuardes,
não vos mostreis contristados como os hipócritas; porque desfiguram o rosto com
o fim de parecer aos homens que jejuam. Em verdade vos digo que eles já
receberam a recompensa. Tu , porém, quando jejuares, unge a cabeça e lava o
rosto, com o fim de não parecer aos homens que jejuas, e sim ao teu Pai, em
secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará” (Mateus 6:16-18)
(continuação)
6. A quinta e mais poderosa razão para a
observância do jejum é que ele constitui auxílio à oração, particularmente
quando dedicamos tempo mais extenso à oração privada. Então é que Deus
especialmente se compraz em elevar a alma de seus servos acima de todas as
coisas da terra, arrebatando-a mesmo, algumas vezes, por assim dizer, até o
terceiro céu. E é principalmente na qualidade de auxílio à oração que o jejum
tem tão frequentemente servido de meio, nas mãos de Deus, para confirmar e
aumentar, não uma virtude, não penas a castidade, (como alguns têm imaginado,
sem qualquer apoio da Escritura, da razão ou da experiência), mas a seriedade
de espírito; a penetração, a sensibilidade e a delicadeza de consciência; a
indiferença para o mundo e, consequentemente, o amor de Deus e toda afeição
celestial e santa.
7. Não há qualquer relação natural e
necessária entre o jejum e as bênçãos que Deus comunica por meio dele. Mas o
Senhor terá misericórdia como quiser ter misericórdia; Ele comunicará o que lhe
pareça bom através do meio que Lhe agrade escolher. E em todos os tempos Ele
elegeu este meio – o jejum – para que Sua ira se aplaque e obtenhamos, assim,
as bênçãos de que de tempos em tempos tivermos necessidade.
Quão
poderoso meio seja o jejum para abrandar a ira de Deus, podemos verificá-lo da
notável passagem de Acabe: “Não havia
ninguém como ele que se vendia” – totalmente se entregando, como escravo
comprado por dinheiro, - “a obras iníquas”.
Quando, porém, ele “rasgou seus
vestidos, vestiu-se de saco e jejuou, e se mostrou quebrantado, a palavra do
Senhor veio a Elias, dizendo: Vês como Acabe se humilha diante de mim? Porque
ele se humilhou diante de mim, não trarei o mal em seus dias” (1 Reis
21:25-29).
Foi para
este fim – abrandar a ira de Deus – que Daniel buscou ao Senhor “com jejum, saco e cinzas”. Isto ressalta de
todo o teor de sua oração, principalmente das palavras finais: “Ó Senhor,
segundo toda tua justiça”, ou misericórdia, “aparte-se tua ira de teu santo
monte. Ouve a oração de teu servo, e sobre o teu santuário, que está desolado,
faze reluzir a tua face. Ó Senhor, ouve; Ó Senhor, perdoa; Ó Senhor, atende-nos
e põe mãos à obra, por amor de Ti mesmo” (Daniel 9:3, 16 e seguintes).
8. Não é, entretanto, apenas com o povo de
Deus que aprendemos a buscar ao Senhor com jejum e oração, quando Sua ira se
acende, também os pagãos assim faziam. Quando Jonas profetizou: “Ainda quarenta
dias, e Nínive será subvertida”, o povo dessa cidade proclamou um jejum e
vestiu-se de saco, desde o maior deles até o mais humilde. “E o rei de Nínive
se levantou do seu trono, e tirou de si os seus vestidos, e cobriu-se de saco e
assentou-se sobre a cinza. Depois fez clamar por toda a parte, e publicar em
Nínive esta ordem: Os homens e as alimárias, e os bois e as ovelhas, não comam
nada; e eles não sejam levados a pastar, nem se lhes dê a beber água” (não que
os animais tivessem pecado ou
fossem capazes de arrependimento; mas
para que, pelo exemplo deles, fosse o homem admoestado, considerando que, por
sua transgressão, a ira de Deus estava suspensa sobre todas as criaturas): “Quem sabe se voltará Deus para nos perdoar,
e aplacará Ele o furor de sua ira, de sorte que nós não pereçamos?”. E seu
labor não foi em vão. A tremenda cólera de Deus se apartou deles. “Deus viu suas obras” (os frutos de
arrependimento e fé que o Senhor infundira nos ninivitas pela pregação de seu
profeta); “E Deus se compadeceu deles, para não lhes fazer o mal que tinha
resolvido fazer, e com efeito não lho fez”
(Jonas 3:4 e seguintes).
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