sexta-feira, 5 de setembro de 2014

ACERCA DO JEJUM (2)




John Wesley     
Quando jejuardes, não vos mostreis contristados como os hipócritas; porque desfiguram o rosto com o fim de parecer aos homens que jejuam. Em verdade vos digo que eles já receberam a recompensa. Tu , porém, quando jejuares, unge a cabeça e lava o rosto, com o fim de não parecer aos homens que jejuas, e sim ao teu Pai, em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará” (Mateus 6:16-18)
         1.      Esforçar-me ei por mostrar, primeiro, qual é a natureza do jejum e quais as suas várias espécies e graus. Quanto à sua natureza, todos os escritores inspirados, tanto do Velho como do Novo Testamento, dão à palavra “jejuar” o sentido único de “não comer, abster-se de alimentos”. Isto é tão claro, que seria ocioso citar as palavras de Davi, de Neemias, de Isaías e de outros profetas, ou de nosso Senhor e Seus apóstolos, todos concordes em que jejuar – é não comer por um tempo prescrito.
         2.      Outras circunstâncias usualmente se juntavam outrora à abstinência de alimentos, circunstâncias que nenhuma relação essencial  tinham com o assunto, tais como o desalinho do vestuário, o abandono de ornatos em outras ocasiões usados, as lamentações, as cinzas derramadas sobre a cabeça e os vestidos de sacos. Encontramos, entretanto, no Novo Testamento, escassa referência a esses acessórios; nenhuma importância especial lhes dão os crentes das eras mais puras, posto que facultativamente alguns penitentes ainda a eles recorram, como sinais exteriores de íntimo quebrantamento.
         Muito menos os apóstolos e os cristãos seus contemporâneos usaram ferir ou flagelar a própria carne: tal disciplina somente iria bem aos sacerdotes e cultuadores de Baal. Os deuses pagãos não passavam de demônios; era, certamente, coisa agradável a seu deus satânico o fato de os sacerdotes (1 Reis 18:28) “gritarem com alarido e ferirem-se até que o próprio sangue os cobrisse”. Mas isso nem pode ser aceitável Àquele que “veio, não para destruir a vida dos homens, mas para os salvar”, nem pode concorrer para estes sejam seus discípulos.
         3.      Quanto aos graus ou medidas do jejum, temos exemplo de alguns que jejuaram por vários dias seguidos. Assim, registra-se que Moisés, Elias e nosso bendito Senhor, fortalecidos para este fim de vigor sobrenatural, jejuaram, sem interrupção, “quarenta dias e quarenta noites”. A duração que a Escritura mais frequentemente assinala ao jejum é, porém, a de um dia, da manhã à tarde. Essa era a prática geralmente mais observada entre os antigos cristãos. Ao lado do jejum assim compreendido, tinham também os meios – jejuns (semi jejunia, como são chamados por Tertuliano), no quarto e no sexto dia da semana (quartas e sextas-feiras), ao longo de todo o ano. Nesses dias eles não tomavam alimento algum até às três horas da tarde, hora em que regressavam do culto público.
         4.      Mais ou menos relacionado com isso é o que nossa igreja designa precisamente pelo termo “abstinência”, que pode praticada quando não se possa jejuar por completo, em razão de enfermidade ou de fraqueza física. Comer pouco, abster-se em parte, usar menor porção de alimentos do que de ordinário se use. Não ocorre nenhuma  passagem nas Escrituras, alusiva a tal prática, mas não a posso condenar, desde que a Escritura não o faz. Ela pode ter sua utilidade – e sem dúvida recebe a bênção de Deus.
(continua)

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