SPURGEON
“Porque Cristo,
estando nós ainda fracos, morreu a seu tempo pelos ímpios.” (Romanos
5:6 )
Agora, queremos
repetir novamente perante vós essa importantíssima doutrina que reconhecemos
como a pedra angular do sistema evangélico, a mesmíssima pedra angular do
Evangelho, essa muito importante doutrina da expiação de Cristo, e logo, sem
tentar justificá-la —pois isso temos feita centenas de vezes—, tiraremos
ensinos práticos dessa verdade que certamente continua sendo válida entre nós.
Como o homem pecou, a
justiça de Deus requeria que se aplicasse o castigo. Deus havia dito: “A alma
que pecar essa morrerá”; e a menos que Deus pudesse equivocar-Se, o pecador
deve morrer. Mais ainda, a santidade de Deus o requeria, pois o castigo estava
apoiado na justiça. Era justo que o pecador morresse. Deus não havia aplicado
uma pena mais severa do que a que devia aplicar. O castigo é o resultado justo
da ofensa. Portanto, há duas alternativas: ou Deus deixa de ser santo ou o pecador
deve ser castigado. A verdade e a santidade imperiosamente requeriam que Deus
levantasse a Sua mão e golpeasse o homem que tinha quebrantado a Sua lei e
ofendido a Sua majestade. Todavia, Cristo Jesus, o segundo Adão, a cabeça
federal dos escolhidos, interpôs-Se como mediador. Ele ofereceu-Se para sofrer
o castigo que os pecadores deviam sofrer; comprometeu-Se a cumprir e honrar a
lei que eles tinham quebrantado e desonrado. Ele ofereceu-Se para ser a pessoa
de importância, a fiança, o substituto, tomando o lugar, o posto e a condição
dos pecadores. Cristo tornou-Se no vicário do Seu povo ao sofrer de maneira
vicária em lugar deles; cumprindo de forma vicária o que eles não tinham a
fortaleza de cumprir pela debilidade da carne em consequência da queda. O que
Cristo se comprometeu a fazer, foi aceito por Deus.
No seu devido tempo,
Cristo realmente morreu e levou a cabo o que tinha prometido fazer. Assumiu
cada pecado do Seu povo e sofreu cada golpe da vara por causa desses pecados.
Sorveu num só trago horrível todo o castigo dos pecados de todos os escolhidos.
Tomou a taça, pô-la nos Seus lábios, suou como que grossas gotas de sangue
quando deu o primeiro sorvo nessa taça, mas não desistiu, mas continuou bebendo
até beber a última gota, e volteando a vasilha para baixo, disse: “Consumado
é!”, e num só tremendo sorvo de amor, o Senhor Deus da salvação tinha apagado
completamente a destruição. Não ficou nem um só vestígio, nem sequer o menor
resíduo; Ele sofreu tudo o que devia ter sofrido; terminou com a transgressão e
pôs um fim ao pecado. Mais ainda, Ele obedeceu à lei do Pai em todos os seus
alcances; Ele cumpriu essa vontade sobre a qual havia dito desde tempos
antigos: “Anelo a Tua salvação, oh Deus, e a Tua lei é a Minha delícia” e,
tendo oferecido tanto uma expiação pelo pecado como o total cumprimento da lei,
subiu ao alto, tomou o Seu assento à mão direita da Majestade no Céu, esperando
daqui em diante que os Seus inimigos sejam postos como escabelo de Seus pés e
intercedendo por aqueles a quem comprou com o Seu sangue para que possam estar
com Ele onde Ele Se encontra. A doutrina da expiação é muito simples. Consiste
simplesmente em que Cristo tomou o lugar do pecador. Cristo é tratado como se
fosse o pecador, e, portanto, o transgressor é tratado como se fosse o justo. É
uma mudança de pessoas. Cristo converte-Se no pecador, coloca-Se no lugar do
pecador. Foi contado entre os transgressores. O pecador torna-se justo;
coloca-se no lugar de Cristo e é contado entre os justos. Cristo não cometeu
pecado algum, mas assume a culpabilidade humana e é castigado pela insensatez
humana. Nós não temos justiça própria, mas assumimos a justiça divina. Somos
recompensados por ela e somos aceites perante Deus como se essa justiça
proviesse de nós mesmos. “A seu tempo Cristo morreu pelos ímpios”, para poder
apagar os nossos pecados.
O meu objectivo não é
demonstrar esta doutrina. Como disse antes, não há necessidade de estar
discutindo sempre o que sabemos que é verdade. Antes, dediquemos umas palavras
sentidas, louvando esta doutrina da expiação; e depois apresentá-la-ei para
fins de uma aplicação prática, para aqueles que ainda não receberam a Cristo.
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