quarta-feira, 2 de julho de 2014

COMÉRCIO ESPIRITUAL INSALUBRE (10)





C. H. Spurgeon
IV. Mas prosseguindo, há outro caráter que tem de ser considerado. “Todos os caminhos do homem são limpos na sua própria opinião”; assim são OS CAMINHOS DO PROFESSANTE COBIÇOSO.
         É assombroso para alguns de nós que um homem cujo objetivo na vida é meramente ganhar dinheiro, e que retém o que possui e não o dá à causa de Deus, adote a profissão de ser um homem Cristão, porque nenhum de todos os vícios é mais contrário à verdadeira religião do que a cobiça. Onde encontraríeis um exemplo de um só santo na Escritura que caísse alguma vez na cobiça? Hão caído em todos os demais pecados, mas neste, não me recordo de que um filho de Deus mencionado na Escritura tenha jamais caído nele.
         A graça pode existir onde há muitos pecados ocasionais, mas nunca onde há uma cobiça perdurável. Pensai nas palavras de Paulo: “Não sabeis que os injustos não hão de herdar o reino de Deus? Não erreis: nem os devassos, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os sodomitas, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os bêbados, nem os maldizentes, nem os roubadores, herdarão o reino de Deus.” (1Co 6:9-10)
         Lutero costumava dizer: “Fui tentado a todos os pecados, exceto à cobiça.” Detestava-a tanto que distribuía os presentes que recebia para não ter a sua porção neste mundo. Adams, no seu livro sobre Pedro, bem assinala: “Noé embebedou-se uma vez com vinho, mas, nunca com o mundo; Ló foi incestuoso duas vezes, mas, nunca foi cobiçoso; Pedro negou o seu Mestre três vezes, mas, não foi o amor ao mundo, mas antes, o temor do mundo o que o conduziu a fazê-lo. Davi foi vencido uma vez pela carne, mas, nunca pela cobiça. Por que é que eles não se desfizeram do adultério, da ira, e de outros pecados similares? Porque as debilidades de um santo podem cair nesses pecados, mas, se caíssem uma vez na cobiça, não restaria nada do santo, nem sequer o nome.
         A cobiça tem a marca do ódio de Deus em toda a sua testa. “Se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele”; e quando alguém que professa a fé mostra o amor do mundo na forma mais grosseira, quando dá o passo para ser o escravo de “Mamon, o menos elevado dos espíritos caídos do céu”,  mostra a evidência, a todos que julgam retamente, de acordo com a Escritura, de que o amor de Deus não está nele, e não pode estar nele; as duas coisas são incompatíveis. Sem embargo, e é estranho dizê-lo, não conhecemos só a uns quantos, cujo caminho lhes parece ser limpo, na sua própria opinião.
         Oprimem aqui e ali, agora os seus servos e agora os seus clientes: a viúva, e os órfãos não estariam seguros com eles se eles lhes pudessem roer os seus ossos. Todos os resíduos que desprendem, sustentam-nos com um apertão de ferro. Ainda que as almas se percam não aceitariam o envio de missionários à custa do seu dinheiro. Ainda que esta Londres se infete de pecado, ainda que se cubra das úlceras da mais terrível depravação, não se veem nunca movidos para dar alguma ajuda tendente a sarar as feridas da cidade. E, sem embargo, enquanto a sua condenação os espera com certeza, e a sua sentença os olha no rosto tão claramente como o Sol desde os céus, os seus caminhos parecem-lhes limpos.
         É estranho que seja assim, porém, o Senhor pesa os espíritos, e que pesagem será essa, quando os homens que escapam à censura da igreja porque o seu pecado foi um pecado que a igreja não pôde tratar, sejam culpados de cometê-lo, e Deus os lance fora! Vãs vão ser as suas pretensões de que comeram e beberam na casa de Deus, pois a resposta virá: “Tive fome, e não me destes de comer; tive sede, e não me destes de beber… estive nu, e não me cobristes; doente, e no cárcere, e não me visitastes. Na verdade vos digo, nunca vos conheci!”
         Oh, deixai que esta verdade, pois é a verdade, atravesse como uma espada de dois fios o meio dos corações de quaisquer um de vós que estais começando a ceder frente a este vício condenatório. Clamai a Deus pedindo que na medida em que vos dê riquezas, as possais usar para a Sua glória. Pedi-Lhe que nunca pereçais com uma pedra de moinho ao redor do vosso pescoço; pois ainda que esse peso assassino seja feito de ouro, o fato de perecer, não será melhor por isso.

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