terça-feira, 3 de dezembro de 2013

O QUE É VERDADEIRA ORAÇÃO? (2)



                                           
JoãoBunyan 
         Em segundo lugar, a oração é um derramar de modo sincero e consciente o coração ou alma. Não se trata, como muitos pensam, de umas poucas expressões balbuciantes, de tagarelices, de expressões lisonjeiras, mas de um sentimento consciente do coração. A oração contém nela uma sensibilidade de diversas coisas: algumas vezes do pecado, algumas vezes da misericórdia recebida, algumas vezes da prontidão de Deus em outorgar misericórdia, etc…
         (a) Um senso da necessidade de misericórdia, por causa do perigo que representa o pecado. A alma, digo, passa por uma experiência na qual suspira, geme, e o pecado a quebranta; pois a verdadeira oração, da mesma maneira que o sangue brota da carne por razão de sobrecarga, expressa balbuciante o que procede do coração quando este se acha sobrepujado com dor e amargura (1 Samuel 1:10; Salmos 69:3). David grita, clama, chora, desmaia em seu coração, os olhos falham, secam, etc., (Salmos 38:8-10). Ezequias gemia como uma pomba (Isaías 38:14). Efraim se lamenta (Jeremias 31:18). Pedro chora amargamente (Mateus 26:75). Cristo experimenta o que é “grande clamor e lágrimas” (Hebreus 5:7). E tudo isto por serem conscientes da justiça de Deus, da culpa do pecado, das dores do inferno e da destruição. “Os cordéis da morte me cercaram, e angústias do inferno se apoderaram de mim; encontrei aperto e tristeza. Então invoquei o nome do SENHOR, dizendo: Ó SENHOR, livra a minha alma” (Salmos 116:3,4). E em outro lugar: “Minha dor corria de noite” (Salmos 77:2). E também: “Estou encurvado, estou muito abatido, ando lamentando todo o dia” (Salmos 38:6). Em todos estes exemplos, e em muitíssimos outros que poderiam ser citados, pode ser visto que a oração carrega uma disposição sentimental consciente, e isto, em primeiro lugar, pelo senso do pecado.
         Às vezes há um doce senso da misericórdia recebida; misericórdia que alenta, consola, fortalece, vivifica, ilumina, etc. Assim, David derrama sua alma para bendizer, adorar e admirar o grande Deus por Sua bondade para com seres tão pobres, vis e miseráveis: “Bendize, ó minha alma, ao SENHOR, e tudo o que há em mim bendiga o seu santo nome. Bendize, ó minha alma, ao SENHOR, e não te esqueças de nenhum de seus benefícios. Ele é o que perdoa todas as tuas iniquidades, que sara todas as tuas enfermidades, que redime a tua vida da perdição; que te coroa de benignidade e de misericórdia, que farta a tua boca de bens, de sorte que a tua mocidade se renova como a da águia” (Salmos 103:1-5). E assim, a oração dos santos se converte às vezes em adoração e ação de graças; mas nem por isso deixa de ser oração. Isto é um mistério; o povo de Deus ora com suas adorações; como está escrito: “Não andeis ansiosos por coisa alguma; antes em tudo sejam os vossos pedidos conhecidos diante de Deus pela oração e súplica com ações de graças” (Filipenses 4:6). Uma ação de graças consciente, pela misericórdia recebida, é uma oração poderosa aos olhos de Deus; ela prevalece com Ele indizivelmente.
         Na oração, a alma se expressa às vezes como já sabendo as bênçãos que há de receber, e isto faz que o coração se inflame: “Pois tu, SENHOR dos Exércitos, Deus de Israel”, disse David, “revelaste aos ouvidos de teu servo, dizendo: Edificar-te-ei uma casa. Portanto o teu servo se animou para fazer-te esta oração” (2 Samuel 7:27). Isto é o que moveu Jacob, David, Daniel e outros: a consciência das misericórdias a serem recebidas. Sem transes nem êxtases, sem balbuciar de maneira néscia e oca algumas palavras escritas num papel, mas com poder, com fervor e sem cessar, estes homens apresentaram, gemendo, diante de Deus, sua condição, experimentando, como disse, suas necessidades, sua miséria e a boa vontade de Deus em mostrar misericórdia (Gênesis 32:10,11; Daniel 9:3,4).
         Ter um bom senso do pecado e da ira de Deus, juntamente com estímulos recebidos de Deus para vir a Ele, é um livro de orações comuns melhor do que as tiradas dos livros papistas usados na missa, que não são outra coisa senão pedaços e fragmentos da imaginação de alguns papas, de alguns monges, e não sei quem mais.

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